Madri em 4 dias: o roteiro de quem parou de tratar a cidade como escala
Por Lucas Bezerra de Aquino
Madri passou anos sendo tratada como conexão para Barcelona ou Lisboa, e quem repete isso normalmente passou quatro horas na cidade. Este é o roteiro de quatro dias, com a hora certa de entrar em cada museu e o truque do passaporte brasileiro que abre o Palácio Real de graça.
Tem uma frase que se repete sobre Madri e que já passou da hora de desmontar: a de que ela é a irmã sem graça de Barcelona, boa apenas como conexão. Quem diz isso normalmente passou uma tarde na Puerta del Sol, achou tudo parecido com qualquer outra capital europeia e seguiu viagem. O problema não é Madri. É o roteiro de quatro horas.
Madri não se entrega em cartão-postal. Não tem uma Sagrada Família nem uma torre que resolve a foto do perfil. O que ela tem é densidade. Três museus de primeira grandeza cabem em quinze minutos de caminhada, os bairros mudam de humor a cada duas quadras, e a rotina de comer em pé, no balcão, acaba organizando o dia inteiro.
E esta é uma boa época para ir. Outubro em Madri tem máximas por volta de 21°C, mínimas perto de 12°C e cerca de quatro dias de chuva no mês inteiro. O calor de agosto, que esvazia a cidade e derrete o turista, já passou. O Natal, que enche tudo outra vez, ainda não chegou.
Antes de sair do aeroporto
Duas informações mexem no orçamento. A partir de 1º de outubro de 2026, o bilhete simples de metrô na Zona A passa a custar €1,50 para qualquer trajeto, não importa quantas estações você atravesse. E os bilhetes precisam ser carregados na Tarjeta Multi, um cartão vermelho de €2,50 que não é pessoal: dá para carregar várias viagens e passar o mesmo cartão seguidas vezes na catraca, o que resolve a vida de quem viaja em família. Saindo ou chegando em Barajas, há um suplemento obrigatório de €3 por pessoa.
Dia 1: o centro e o Prado no fim da tarde
Comece pela Plaza Mayor e desça para La Latina, que é onde Madri come. O Mercado de San Miguel fica no caminho e é bonito de ver, mas cobra preço de vitrine: entre, coma uma coisa só, e faça a refeição de verdade nas ruas ao redor, onde uma caña sai por €1,50 a €3 e as tapas custam de €2 a €4.
Reserve o fim da tarde para o Museo del Prado. A entrada custa €15 e é gratuita de segunda a sábado das 18h às 20h, e aos domingos e feriados das 17h às 19h, sempre apenas para a coleção permanente. Mas é bom saber o que você está trocando: duas horas dão para uma seleção, não para o museu inteiro, e a fila se forma antes de a faixa abrir. Se esta for sua única chance com Velázquez e Goya, pague os €15 e entre na abertura, às 10h. Se você tem os quatro dias inteiros, use a faixa gratuita em dois dias diferentes e veja o Prado em duas doses.
Dia 2: palácio, coleções reais e o sol descendo
Aqui está a dica que mais economiza dinheiro em Madri e que quase nenhum brasileiro conhece. O Palacio Real custa €18, mas tem entrada gratuita para cidadãos ibero-americanos, e o Brasil está nessa lista. A faixa é de segunda a quinta, nas duas últimas horas antes de fechar: das 16h às 18h no horário de inverno (outubro a março) e das 17h às 19h no de verão. Só funciona na bilheteria, por ordem de chegada, com passaporte original na mão (foto no celular não serve). Apareça uns 30 ou 40 minutos antes e confira o horário do dia no site do Patrimonio Nacional.
Ao lado fica a Galería de las Colecciones Reales, museu novo e ainda pouco visitado, com 650 peças da Coroa espanhola, entre elas obras de Velázquez, Goya, El Greco e Caravaggio. Custa €14, com entrada franca das 18h às 20h de segunda a quinta. Encerre o dia no Templo de Debod, um templo egípcio de verdade, presente do Egito à Espanha, plantado num parque a oeste do centro. O interior é gratuito e pede reserva pelo site da prefeitura, mas a explanada em volta fica aberta a qualquer hora e é o melhor lugar da cidade para ver o sol descer.
Dia 3: Toledo ou Segóvia
As duas cabem num bate-volta. Toledo é a cidade de pedra debruçada sobre o Tejo, com catedral gótica e o casario das três culturas empilhado na colina. O trem AVANT leva 33 minutos e sai por volta de €22 ida e volta; o ônibus da ALSA custa a partir de €7, leva de 50 minutos a 1h30, e tem saídas o dia inteiro.
Segóvia tem um aqueduto romano de quase 2 mil anos plantado no meio da cidade, sem cerca e sem bilheteria, além do Alcázar de castelo de conto. O trem sai de Chamartín em 28 minutos, com o AVANT a €13,90 por trecho (com um mês de antecedência, cai para uns €6). Da estação Segovia-Guiomar, o ônibus 11 leva quinze minutos até o aqueduto por €1,50.
Veredito: se é a sua primeira vez na Espanha, Toledo. Se você viaja com criança pequena, Segóvia, que tem menos ladeira para pernas curtas.
Dia 4: Guernica, Retiro e o que sobrar
O Museo Reina Sofía custa €12 e fica gratuito no fim do dia, das 19h às 21h. Fecha às terças e aos domingos funciona só até as 14h30. O Guernica está na sala 205.10 do edifício Sabatini, no segundo andar, e é uma daquelas telas para as quais nenhuma reprodução prepara você: o tamanho é parte do assunto.
Depois atravesse para o Parque do Retiro. Quem viaja com filho pequeno vai achar este o dia mais fácil da viagem, com gramado, lago de barquinhos e o Palácio de Cristal, sem fila em lugar nenhum. E quem tem futebol no sangue pode encaixar o tour do Santiago Bernabéu, que leva cerca de 1h30 e custa €25 para adultos e €19 para crianças, com gratuidade para menores de 5 anos.
A conta
O voo direto de São Paulo para Madri leva cerca de 11 horas, com LATAM, Iberia e Air Europa na rota, e costuma ficar entre R$ 3.000 e R$ 4.000 na ida e volta, com novembro entre os meses mais baratos. Em terra, o gasto que mais pesa costuma ser comida, e é aí que a Espanha desconta. O menú del día, servido de segunda a sexta no almoço, sai por €14,20 em média na cidade, com entrada, prato principal, sobremesa, pão e bebida inclusos. Em Lavapiés ele cai para a faixa de €10 a €13. Depois de dois anos morando em Dublin, onde um almoço assim seria ficção científica, ainda me pego desconfiando desse preço.
Quatro dias não esgotam Madri. Esgotam a ideia de que ela é só uma escala.
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