Dublin em 3 dias: o roteiro de quem morou na Irlanda (e passa longe do Temple Bar)
Dublin, Irlanda23 de agosto de 2026

Dublin em 3 dias: o roteiro de quem morou na Irlanda (e passa longe do Temple Bar)

Por Lucas Bezerra de Aquino

Morei dois anos na Irlanda e o pior conselho que dou a quem vai a Dublin pela primeira vez é começar pelo Temple Bar. Roteiro de 3 dias com preços de 2026, o que precisa de reserva com antecedência e o que dá para pular.

Existe um roteiro não escrito que quase todo brasileiro segue na primeira noite em Dublin: largar a mala, caminhar até a fachada vermelha do Temple Bar e pedir uma pint. É também a melhor forma de achar que a cidade é cara demais. A pint média em pub irlandês passou dos 6 euros em 2026, e em Dublin varia de 4,50 a pouco mais de 8. No Oliver St John Gogarty, dentro do Temple Bar, o mesmo copo chega a 11,95. Ali você paga o cenário, não a cerveja.

Morei dois anos na Irlanda com minha esposa e voltei a Dublin depois disso, agora com uma filha pequena junto. A cidade que eu recomendo é outra: menor do que parece no mapa, teimosamente cinzenta e cheia de coisa boa de graça que não entra em folheto. Três dias resolvem o centro sem correria. Quatro, se você quiser um dia fora.

A época certa. Setembro é o mês que eu escolheria. As máximas ficam perto de 17°C, as mínimas em 10°C, e sobram quase 13 horas de luz por dia, o que muda tudo numa cidade que se percorre a pé. Em compensação, chove em cerca de 15 dos 30 dias, pouco de cada vez e quase sempre de lado: leve casaco com capuz e deixe o guarda-chuva em casa. O ponto fraco é o preço: de julho a setembro é alta temporada e a diária no centro passa fácil dos 300 dólares. Novembro e fevereiro derrubam esse número, ao custo de dias curtos e frio mais firme. Quem for em setembro ainda pega o Dublin Fringe Festival, que em 2026 toma a cidade de 5 a 20.

Do aeroporto ao centro. Não existe trem do aeroporto ao centro. O ônibus Airlink 747 leva de 30 a 45 minutos e custa 9 euros, ou 6,50 com Leap Card. Faça a conta do Leap Visitor Card logo na chegada: 8 euros por um dia, 19 por três, 40 por sete, com viagens ilimitadas em ônibus, Luas, DART e no próprio Airlink. Se você pretende usar o DART uma vez que seja, a versão de três dias já se paga.

Dia 1: o centro a pé, e um aviso sobre o Long Room. Comece pelo Trinity College. O Book of Kells Experience custa 25 euros para adulto, 22 para estudante e sênior, 12 para criança, grátis até 12 anos e 55 no combo família, sempre em horário marcado. Agora o aviso que quase ninguém dá: o Long Room, aquele corredor de madeira escura das mil fotos, está com as estantes praticamente vazias. Os cerca de 200 mil livros saíram em 2023 para limpeza e digitalização e só voltam entre 2027 e 2030. A sala segue aberta, hoje com a escultura Gaia, de Luke Jerram, suspensa no meio. Se a sua expectativa era a foto clássica, ajuste antes de comprar.

Da Trinity são dez minutos até o Museu Nacional da Irlanda (Arqueologia), na Kildare Street. Entrada gratuita, e é lá que estão os corpos de pântano e o ouro pré-histórico de uma Irlanda muito mais antiga que a versão de trevo e duende. Fica o alerta de agenda: o Chester Beatty, no Castelo de Dublin, também gratuito, está fechado ao público de 15 de junho até o fim de dezembro de 2026. Para a noite, ande duas ou três ruas para fora do Temple Bar. Os pubs da Camden Street e da Capel Street servem a mesma cerveja por dois a três euros a menos, com música ao vivo que não é encenação para turista.

Dia 2: a história que dói, e a que vem em copo. Kilmainham Gaol é a visita mais forte de Dublin e a que exige mais planejamento. Custa cerca de 8 euros para adulto, 6 para sênior e 4 para jovem de 12 a 17 anos, mas todo visitante precisa de ingresso com horário: só se entra em visita guiada, com grupo limitado. Os lotes abrem 28 dias antes, à meia-noite do horário irlandês, e evaporam. Se você perdeu, ainda sai uma pequena leva online por volta das 9h15 do próprio dia. Compre apenas nos canais oficiais, o site do museu e o Heritage Ireland: ingresso de revenda é barrado na porta.

Depois do almoço, a Guinness Storehouse divide opiniões e eu fico do lado de quem entra. O preço é dinâmico: uns 26 euros em dia de semana fora de pico, 30 a 36 num fim de semana cheio, sempre com a pint incluída no Gravity Bar, no último andar, de onde se vê a cidade em 360 graus. Criança de 5 a 17 anos paga cerca de 10 euros, com refrigerante no lugar da pint. É caro para um museu de marca, mas a vista entrega o que promete. Quem preferir algo mais silencioso tem o 14 Henrietta Street por 9 euros, de quarta a domingo: 75 minutos guiados dentro de um casarão georgiano que virou cortiço para centenas de pessoas, e que explica Dublin melhor que qualquer city tour.

Dia 3: o mar a 25 minutos do centro. Pegue o DART em Connolly, Tara Street ou Pearse e desça em Howth. São 25 minutos e 1,55 euro com Leap Card, ou nada, se você comprou o Visitor Card. A trilha do penhasco é aberta, gratuita e sinalizada por cores: o loop verde tem 7,8 km, o azul 7 km, o vermelho 8 km e o roxo 12 km. Duas a três horas de caminhada com o mar logo abaixo e um fish and chips no porto no fim. Foi o passeio que melhor funcionou com criança pequena: carrinho não sobe a trilha, mas o cais, os barcos e as focas que rondam a peixaria seguram uma manhã inteira sem custo.

Se sobrar um quarto dia. A tentação é fechar o bate e volta para os Cliffs of Moher. Faça a conta antes: são cerca de 13 horas de porta a porta, oito delas de estrada, por 65 a 89 euros, para ficar 90 a 120 minutos no penhasco. Com um único dia livre, Glendalough, nas montanhas de Wicklow, rende mais. O St Kevin's Bus sai do St Stephen's Green North às 11h por 14 euros a ida e 23 a ida e volta, e o vale com o mosteiro do século VI e os dois lagos fica a pouco mais de uma hora do centro.

O que reservar antes de embarcar. Kilmainham Gaol e Trinity, sem discussão. A Guinness compensa comprar antes, porque o preço sobe com a demanda. O resto de Dublin cabe na improvisação, e é aí que a cidade fica boa.

Continue planejando