Lençóis Maranhenses mês a mês: quando as lagoas enchem de verdade (e o mês que eu escolheria)
Por Lucas Bezerra de Aquino
Os Lençóis não são destino de verão: em janeiro e fevereiro as lagoas das fotos simplesmente não existem. O calendário completo, com a chuva média de cada mês, o preço, o movimento e a janela que eu escolheria para 2027.
O erro mais comum de quem planeja os Lençóis Maranhenses é tratá-los como praia de verão. Em janeiro e fevereiro as dunas estão lá, mas as lagoas das fotos simplesmente não existem. Elas são poças de chuva, sem nascente nem rio: enchem entre janeiro e maio, ficam cheias de junho a agosto, baixam em setembro e somem em novembro. Morei dois anos na Irlanda e aprendi a desconfiar de previsão do tempo. Nos Lençóis é o contrário: a chuva é a coisa mais previsível do ano, e é ela que decide se você vai ver água ou areia.
A tabela que importa é a de chuva, média histórica de Barreirinhas segundo o Climatempo: janeiro 145 mm, fevereiro 207, março 285, abril 306, maio 205, junho 76, julho 45, agosto 10, setembro 6, outubro 9, novembro 14, dezembro 44. A temperatura fica entre 24 °C e 32 °C o ano inteiro; o que separa um mês do outro é a água. A lagoa demora semanas para se formar e seca no mesmo ritmo, por isso o auge da água (maio) não coincide com o auge da beleza (junho a agosto), quando o sol firma e a água clareia. O roteiro de 4 dias nos Lençóis já está no blog; aqui o assunto é calendário.
Janeiro: a chuva começa e as lagoas ainda são manchas úmidas entre as dunas. Quem vai nas férias faz melhor em ficar em Atins, que tem praia, vento e passeios que não dependem de lagoa, como a lancha pelo rio Preguiças.
Fevereiro: instável, e o Carnaval ainda assim leva gente para lá. Se choveu muito em janeiro, algumas lagoas de Santo Amaro do Maranhão já têm água; as de Barreirinhas, em geral, não.
Março: chove quase o dobro de janeiro e o parque fica tão vazio que parte do comércio de Barreirinhas fecha as portas. É a temporada mais barata do ano, paga em dias de temporal.
Abril: o mês mais chuvoso. As lagoas ganham volume e já dá para nadar, mas com céu cinza a água não tem a cor das fotos. Passagem e pousada ficam bem mais baratas; a experiência também.
Maio: o mês de maior volume de água e uma loteria de sol. Chove menos do que em abril, mas chove, e o parque está quase vazio. Se for arriscar, prefira a segunda quinzena. Guias locais gostam de maio: lagoa cheia e ninguém na fila da Lagoa Bonita.
Junho: o melhor mês. A chuva despenca, as lagoas estão no máximo e o céu azul volta a ser regra. É o começo da alta temporada: as festas juninas e o bumba meu boi tomam o Maranhão, muita gente divide a viagem com São Luís e as pousadas das duas pontas lotam. Reserve com meses de antecedência.
Julho: o auge das lagoas e o auge das filas. Férias no Brasil, verão na Europa, passagem e pousada nos preços mais altos do ano, e o Circuito Lagoa Azul no fim da tarde vira disputa pelo mesmo ângulo de pôr do sol. Quem pega a primeira saída da manhã ainda encontra as lagoas quase vazias.
Agosto: o segundo melhor mês, talvez o mais inteligente. Praticamente não chove, as lagoas continuam cheias, o movimento cai e o vento chega a Atins, abrindo a temporada de kitesurf, que vai até janeiro. Prefira a primeira quinzena: dali em diante, cada semana tira alguns centímetros de água.
Setembro: o mês da incógnita. O sol está garantido; a água, não. Em ano chuvoso as lagoas de Barreirinhas seguem bonitas até o fim do mês; em ano seco, já estão rasas. Se a viagem só cabe em setembro, durma em Santo Amaro: as lagoas ficam no miolo do parque e secam por último.
Outubro: as lagoas principais estão quase secas, salvo em anos muito chuvosos. O que sobra é outra viagem: as lagoas grandes de Santo Amaro, a Lagoa da Lua, perto de Atins, que segura água até o fim da temporada, e a praia com o kitesurf no auge.
Novembro: só as lagoas perenes têm água. O clima é perfeito e a passagem para São Luís costuma sair barata, e é assim que muita gente compra no impulso e volta decepcionada. É viagem de duna, praia e vento, não de lagoa.
Dezembro: a chuva volta devagar, as lagoas continuam vazias e o vento perde força. A exceção é o réveillon de Atins, que lota as pousadas de frente para o mar.
As lagoas que não secam
A Lagoa da Esperança, formada pelo rio Negro barrado pelas dunas, tem água o ano inteiro e sai de Barreirinhas em passeio de meio dia. A Lagoa Verde, colada em Atins, também é perene, e a Lagoa da Gaivota, em Santo Amaro, costuma segurar água até outubro. Some a lancha pelo rio Preguiças, com parada em Vassouras, Mandacaru e Caburé, e o mar de Atins, e novembro vira outra viagem, não um erro.
O que mudou em 2026
O parque recebeu mais de 650 mil visitantes em 2025, e o ICMBio testa um teto diário de entradas, ainda sem data para valer. Desde 1º de maio de 2026 valem regras novas para travessias: no máximo dez pessoas por guia, reserva prévia nos pontos de apoio, nada de vidro nem fogueira. Quem faz os circuitos de um dia não sente diferença. E a TAP passa a voar de Lisboa para São Luís em outubro, o que tende a trazer mais estrangeiros na alta temporada.
O mês que eu escolheria
Junho, na primeira quinzena, antes das férias escolares e com as lagoas no máximo. Segunda opção, a primeira quinzena de agosto, com o parque mais calmo e o sol garantido. Com criança pequena, como a gente viaja hoje, essas janelas ganham de longe: em julho a fila da balsa cansa antes da lagoa, e em abril ninguém quer passar a tarde na pousada esperando o temporal. Setembro só com Santo Amaro no roteiro, e sempre perguntando à agência como estão as lagoas naquele ano.
Sobre dinheiro: os circuitos de 4x4 custam de R$ 120 a R$ 180 por pessoa o ano inteiro. O que muda é a pousada: a suíte de casal mais simples sobe de R$ 160 a 200 na baixa para R$ 260 ou mais de junho a setembro, o que em seis noites dá R$ 360 a 900 de diferença por casal, antes da passagem. A questão é o que essa economia compra: em maio, a chance de chuva; em novembro, a certeza de não ter lagoa. Nos Lençóis a chuva não assina contrato de entrega, mas cumpre a tabela com uma pontualidade rara. Quem lê a tabela viaja na janela certa.
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