Chip internacional ou eSIM na Europa: o que compensa em 2026 (e a diária que dispara sozinha)
Por Lucas Bezerra de Aquino
Roaming da operadora não é sempre roubo, eSIM ilimitado não é sempre ilimitado e o chip de 20 euros da Irlanda continua imbatível para quem fica num país só. A conta real, em reais, para uma família com dois celulares.
Na primeira semana morando na Irlanda, a tarefa mais urgente não foi abrir conta no banco nem achar apartamento: foi entrar numa loja da Three em Dublin e sair com um chip de 20 euros que dava internet ilimitada por 28 dias. Hoje, viajando com a minha filha pequena, a rotina é outra: o eSIM entra no celular no sofá de casa, dois dias antes do voo, e a única loja que visito no desembarque é a padaria.
Entre esses dois mundos existe um clichê que eu mesmo repeti por anos: "esquece a operadora brasileira, roaming é roubo". Fui conferir os números de 2026 e a frase está errada pela metade.
Primeiro, o teste do celular. eSIM é um chip virtual instalado por QR code ou aplicativo, sem trocar nada fisicamente. Funciona no iPhone a partir do XR e do XS (2018), nos Galaxy da linha S desde o S20 e nos Pixel, mas vários modelos vendidos no Brasil ficaram de fora, inclusive recentes. A prova dos nove é abrir os ajustes do aparelho e procurar a opção de adicionar eSIM. Sem essa opção, ou com celular bloqueado por operadora, sobram chip físico e roaming.
A diária da operadora brasileira. Aqui mora a metade errada do clichê. A Vivo cobra R$ 39,99 por dia na Europa, só nos dias em que há uso, com franquia diária que varia por país. A Claro cobra R$ 39,90 pela diária de 2 GB. Em dez dias, cada celular gasta uns R$ 400: caro, mas é preço de última hora. O que muda a conta são os pacotes mensais. Claro, TIM e Vivo vendem o pacote Europa por R$ 19,99 ao mês, por linha, com fidelidade de 12 meses (R$ 240 no ano, e multa se cancelar antes). A TIM tem ainda a versão sem fidelização: R$ 99,99 por um mês de roaming na Europa usando a franquia do seu plano e o seu próprio número. Para duas ou três semanas, isso bate quase todo eSIM. E há quem já tenha pagado por isso sem saber: o roaming na Europa vem incluído no Claro pós de 150 GB, nos TIM Black a partir de 110 GB, nos Black Família e nos planos Vivo Família. Antes de comprar chip, abra o app da operadora.
eSIM regional: os preços de verdade. A Airalo vende o pacote Eurolink, que cobre mais de 40 países, incluindo Reino Unido e Turquia: 1 GB sai por cerca de R$ 26, 10 GB por 30 dias por cerca de R$ 160 e o ilimitado de 30 dias por R$ 369. A Holafly só trabalha com ilimitado, em 33 países que incluem Irlanda, Reino Unido e Suíça: US$ 20,50 por 5 dias, US$ 36,50 por 10 e US$ 73,90 por 30. Pagando em reais no site, em julho o plano de 10 dias saía por R$ 212,90 e o de 30 por R$ 432,90, acima do câmbio. A letra miúda dos dois: "ilimitado" tem política de uso justo, a velocidade pode cair depois de alguns gigas no dia, e na Holafly o hotspot é limitado a 1 GB diário. Nenhum inclui ligações; o WhatsApp segue com o seu número brasileiro, e isso resolve quase tudo.
A opção que mais me surpreendeu foi a Orange Travel (antigo Orange Holiday Europe), da operadora francesa: 20 GB por 14 dias com ligações ilimitadas dentro da Europa, um número francês de verdade e hotspot sem limite, por US$ 29,99, cerca de R$ 155. Para quem precisa ligar para restaurante e locadora, ou dividir a internet com o tablet da criança no trem, é a conta que fecha melhor. Em todos os casos, some o IOF de 3,5% da compra internacional no cartão.
Chip local: o mais barato, com um porém. Na Irlanda, Three e Vodafone continuam vendendo o pré-pago de 28 dias com dados ilimitados por 20 euros, uns R$ 120. Por ser um chip da União Europeia, ele roda nos outros países do bloco sem tarifa extra, mas com um teto de roaming bem menor que o ilimitado local (21 a 35 GB, conforme a operadora), e destinos fora do bloco, como a Suíça, ficam de fora. O porém é o custo invisível: achar loja, esperar atendimento, apresentar passaporte (Itália, Espanha, Portugal e Alemanha exigem cadastro) e fazer tudo isso no dia do desembarque, com criança cansada. Compensa para quem fica duas semanas ou mais num país só.
O benefício escondido no cartão. Desde a parceria da Visa com a GigSky, o Visa Infinite dá direito a um eSIM com 3 GB grátis, válido por 15 dias, uma vez por ano; Visa Platinum e Signature dão 1 GB. Planos extras saem com 20% a 30% de desconto. Três gigas cobrem mapa, WhatsApp e uma ou outra busca por dez dias, se o Instagram ficar para o Wi-Fi do hotel. Custo zero é o melhor preço, e quase ninguém usa.
A conta para uma família de três, dois celulares, dez dias. Diárias da operadora: cerca de R$ 800. TIM sem fidelidade, se as duas linhas forem TIM pós: R$ 200. Holafly ilimitado: R$ 426. Airalo de 10 GB: uns R$ 320. Orange de 20 GB com hotspot: um só, dividido entre os dois, R$ 155. Chip local irlandês: R$ 240, mais uma manhã na loja. Visa Infinite: zero, se os dois cartões forem elegíveis. Não existe resposta única, existe perfil: quem já tem roaming no plano usa o que pagou; quem usa pouco compra franquia pequena ou aciona o cartão; quem viaja em família e liga para restaurante fica com a Orange; quem vai passar um mês em um país só compra o chip local; quem não quer pensar em nada paga o prêmio da Holafly de olhos abertos.
Os erros que saem caro. Deixar os dados em roaming ligados na linha brasileira: os apps em segundo plano disparam a diária de R$ 40 sem você abrir nada. Instalar o eSIM só no aeroporto, sem Wi-Fi confiável, ou apagá-lo por engano (a maioria não reinstala). Comprar plano "Europa" sem conferir se a Suíça ou o Reino Unido da sua conexão estão na lista. E desligar o chip brasileiro de vez: o SMS do banco chega nele, então a linha fica ativa, só com os dados desativados.
Na Irlanda, o chip de 20 euros era rotina de morador. Hoje a véspera de viagem leva dez minutos: abrir o app da operadora para ver se já tenho roaming, instalar o eSIM em casa e desligar os dados da linha brasileira ainda no avião. É burocrático, como todo bom contrato, e economiza uns R$ 400 por celular.
