Bagagem de mão sem taxa: as regras de cada companhia (e o erro que custa mais que a passagem)
Bagagem, Geral16 de setembro de 2026

Bagagem de mão sem taxa: as regras de cada companhia (e o erro que custa mais que a passagem)

Por Lucas Bezerra de Aquino

Gol e Latam liberam 12 kg, Azul fica nos 10, a Ryanair cobra por qualquer mala de rodinha e a lei europeia não acabou com a taxa. As medidas, os valores de 2026 e os erros que custam mais que a passagem.

Existe um momento, no portão de embarque de qualquer aeroporto da Europa, em que um funcionário aponta pra uma armação de metal no chão e pede que você encaixe sua mochila ali dentro. Passei por isso mais vezes do que gostaria nos dois anos em que morei na Irlanda, quase sempre num voo da Ryanair que tinha custado 20 euros e ameaçava custar 75 a mais por causa de dois centímetros de alça. Aprendi ali que bagagem de mão não é um conceito, é uma medida. E quem decide se ela é grátis não é o bom senso, é a tabela da companhia.

A tabela mudou bastante entre 2025 e 2026, e o que valia na sua última viagem pode não valer na próxima.

O piso legal no Brasil. A Resolução 400 da ANAC garante, em voo doméstico, o direito de levar sem custo uma bagagem de mão de pelo menos 10 kg, além de um item pessoal. É um piso, não um teto: a companhia pode liberar mais, e algumas liberaram. As dimensões ficam a cargo de cada empresa, e é nelas que mora a surpresa.

Gol. Mala de mão de 55 x 35 x 25 cm e, desde o fim de 2025, até 12 kg em qualquer tarifa doméstica. O detalhe que pega muita gente é o item pessoal: 32 x 43 x 22 cm, o menor entre as três grandes. Uma mochila comum de notebook costuma passar dos 32 cm de largura. Meça antes de sair de casa.

Latam. Mesmos 55 x 35 x 25 cm, com 12 kg na Economy e 16 kg na Premium Economy e na Business. O item pessoal é mais generoso, 45 x 35 x 20 cm e até 10 kg, com um limite combinado de 22 kg entre as duas peças.

Azul. Mantém o piso da ANAC: 55 x 35 x 25 cm e 10 kg, com item pessoal de 45 x 35 x 20 cm. Dois quilos a menos parecem pouco até você colocar notebook, carregador e câmera na conta. A Azul também tem fama de ser a mais rigorosa na pesagem do portão, e cobra caro quando a conta não fecha.

Quanto custa errar. Se a mala passa do peso ou da medida no portão de embarque, o valor cobrado hoje fica entre R$ 130 e R$ 200 por trecho, dependendo da companhia. Por trecho, não por viagem: numa ida e volta com conexão, o mesmo erro pode se repetir quatro vezes. O despacho comprado com antecedência no site sai bem mais barato, algo entre R$ 80 e R$ 160 na maior parte das rotas.

A armadilha da tarifa Basic. É a mudança mais importante do último ano e a menos comentada. Em voo internacional, a tarifa mais barata da Latam (a Basic, hoje oferecida em várias rotas da América do Sul, como as do Chile) inclui apenas o item pessoal de 10 kg que cabe embaixo do assento. A Gol adotou a mesma lógica em outubro de 2025 nos seus voos internacionais. Mala de rodinha, mesmo pequena, não entra. O erro clássico é comparar preços num buscador, achar a Basic 150 reais mais barata e descobrir no aeroporto que a mala de bordo custa mais do que a diferença. Antes de fechar, leia a linha da bagagem. É o que eu faria com qualquer contrato: vale o que está no papel, não o que se imagina.

Europa: a low cost tem outra régua. Na Ryanair, o que é grátis é um saco pequeno de 40 x 30 x 20 cm, que precisa caber inteiro no medidor do portão. A medida cresceu em setembro de 2025 (antes era 40 x 20 x 25), mas continua sendo uma mochila, não uma mala. A mala de 10 kg (55 x 40 x 20) só entra com o pacote Priority & 2 Cabin Bags, que na compra antecipada custa em torno de 6 a 36 euros por trecho, conforme rota e data. Chegar ao portão com uma mala de rodinha sem esse pacote custa de 70 a 75 euros. Em muitos casos, mais do que a passagem.

Na easyJet, a peça gratuita é um pouco maior, 45 x 36 x 20 cm, com até 15 kg. A mala grande de cabine (56 x 45 x 25 cm) é paga e precisa ser comprada antes: anunciada a partir de 6 libras, na prática fica entre 20 e 26 libras por trecho nas rotas cheias. A Vueling cobra até 75 euros pela mala de 10 kg, a Transavia até 43, e a Eurowings até 18 euros por uma peça de 8 kg na tarifa básica.

E a tal lei europeia? Muita gente leu em janeiro de 2026 que o Parlamento Europeu tinha aprovado bagagem de mão gratuita de 7 kg e 100 cm somados, e deu a cobrança por encerrada. Não é bem assim. O texto final, aprovado em 7 de julho de 2026 depois do acordo com os governos do bloco, garante de graça o item pessoal de 40 x 30 x 15 cm e obriga as companhias a mostrar, logo no início da busca, o preço já com a mala de mão incluída. Mas elas continuam autorizadas a vender uma tarifa mais barata pra quem abre mão da mala. Mais transparência, não o fim da taxa. E só entra em vigor em 2027.

Viajando com criança pequena. Carrinho de bebê e bebê-conforto (ou cadeirinha) são despachados sem custo nas três companhias brasileiras, em geral até a porta do avião, com a gratuidade valendo até os 2 anos incompletos na Gol e na Azul e, na Latam, para o carrinho dobrável até os 11 anos. O que ninguém avisa é que, na tarifa Basic, o item pessoal do adulto vira também a bolsa da criança, e 10 kg de fraldas e lenços acabam mais rápido do que parece.

A conta na ponta do lápis. Compre uma balança de mão (custa entre R$ 30 e R$ 50) e pese a mala com tudo dentro, incluindo o que pretende comprar no free shop da volta. Meça com rodas e puxador: muita mala vendida como tamanho cabine tem 57 cm de verdade. Se souber que vai passar, compre o despacho no site antes do check-in, nunca no portão. Na Europa, decida antes de comprar se você é pessoa de mochila ou de mala de rodinha, porque são duas passagens diferentes com o mesmo nome.

Nenhuma dessas regras é eterna. A lógica por trás delas é: a companhia lucra com quem descobre a tabela no aeroporto. Ler antes é o desconto mais barato que existe.

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