Buenos Aires em 4 dias: tango, parrilla e a livraria mais bonita do mundo
Buenos Aires, Argentina15 de agosto de 2026

Buenos Aires em 4 dias: tango, parrilla e a livraria mais bonita do mundo

Por Lucas Bezerra de Aquino

Setembro devolve a primavera a Buenos Aires, com preços de baixa temporada. Roteiro de 4 dias entre o Teatro Colón, a feira de San Telmo, o Caminito e a parrilla certa para cada bolso.

Existe um clichê que insiste em chamar Buenos Aires de Paris da América do Sul. Eu discordo, e a favor dos argentinos. Paris não tem bife de chorizo chiando na brasa às onze da noite, não tem livraria dentro de teatro e não tem essa mania linda de transformar qualquer esquina em pista de tango. Buenos Aires não precisa ser a Paris de ninguém: ela é a capital mais charmosa que um brasileiro alcança em cerca de três horas de voo, sem visto e, muitas vezes, só com o RG.

E setembro é um segredo escondido à vista de todos. A primavera chega, os plátanos voltam a dar sombra e as máximas rondam os 21°C. E, como é baixa temporada para brasileiros, passagens e hotéis caem de preço. Você ganha a cidade em clima de flor recém-aberta, sem o calorão de janeiro nem as multidões das férias de julho.

Dia 1: Centro, Teatro Colón e a livraria-teatro. Comece pela Plaza de Mayo, onde a Casa Rosada, o Cabildo e a Catedral Metropolitana (a mesma em que Jorge Bergoglio celebrou missas antes de virar o Papa Francisco) contam dois séculos de história em uma praça só. Dali, siga até o Teatro Colón, e aqui vai a regra número um da viagem: faça a visita guiada. São cerca de 50 minutos entre mármores, vitrais e a sala principal, de acústica considerada uma das melhores do planeta. As visitas saem todos os dias, das 10h às 16h45, a cada 15 minutos, com horários em português; estrangeiros pagam 30 mil pesos, comprados no site ou na bilheteria. Termine no El Ateneo Grand Splendid, o teatro de 1919 que virou livraria: entrar é grátis, e o café instalado no antigo palco vale a pausa.

Dia 2: San Telmo e Caminito (de preferência num domingo). Se puder desenhar o roteiro para cair num domingo, faça: é quando a Feira de San Telmo toma a Calle Defensa com antiguidades, artistas de rua e um choripán que justifica a fila. Fora do domingo, o Mercado de San Telmo segura a onda com bancas de empanadas e cafés. À tarde, siga para o Caminito, em La Boca. Sim, é turístico; sim, vá mesmo assim: as casas de zinco coloridas renderam a foto de capa deste post por um motivo. Vá de dia, fique no circuito principal e volte de táxi ou aplicativo: o entorno não é para caminhadas distraídas.

Dia 3: Recoleta e Palermo. O Cemitério da Recoleta parece programa mórbido até você cruzar o portão: é um bairro de mausoléus com esculturas de museu, onde está o túmulo de Evita. Abre todos os dias, das 9h às 17h; estrangeiros pagam pouco mais de 24 mil pesos (na casa dos R$ 60), no cartão, na própria entrada. Almoce pela vizinhança e emende a tarde em Palermo: o MALBA para a arte latino-americana, o Jardim Japonês para desacelerar e os Bosques de Palermo, que em setembro começam a florescer. À noite, a recompensa da viagem: parrilla.

Dia 4: Palermo Soho, café e tango. Reserve a manhã para as lojinhas e murais de Palermo Soho, ao redor da Plaza Serrano. À tarde, o ritual do café com medialunas. E uma confissão: o centenário Café Tortoni é lindo, mas a fila na porta raramente compensa; qualquer cafeteria notável de bairro entrega o mesmo encanto sem espera. Feche a viagem com tango: um show tradicional com jantar resolve, mas melhor ainda é uma milonga de verdade, onde os portenhos dançam e você arrisca os primeiros passos.

Sobre a carne, o assunto mais sério da cidade, a faixa de preço explica tudo: um bodegón ou parrilla de bairro honesta sai entre 20 e 45 mil pesos por pessoa; casas mais sofisticadas, de 45 a 90 mil. O famoso Don Julio, estrela Michelin e presença fixa nas listas de melhores do mundo, cobra de 90 a 120 mil pesos por um jantar completo com vinho, e exige reserva com semanas de antecedência. Minha sugestão herege: pule a fila e vá de Santos Manjares, a parrilla queridinha dos brasileiros, onde o bife de chorizo chega ao ponto perfeito por uma fração do preço.

Dicas finais de quem já errou por você: leve casaco, porque as noites de setembro ainda pedem; pague em cartão internacional, que os preços em pesos mudam rápido (confira valores atualizados antes de ir); e não subestime as distâncias, porque a cidade é grande e o Subte resolve bem os trajetos entre Centro, San Telmo e Palermo.

Quatro dias não esgotam Buenos Aires: deixam saudade calculada. E talvez seja essa a maior herança portenha: você volta para casa planejando a próxima ida antes mesmo de desfazer a mala.

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